A semente da Boa Nova não
cai do céu; já existe no meio do povo. 1
Frei André Rocha da Silva
-----------Ao
relermos a história da nossa Ordem, constatamos que o primeiro
grupo de carmelitas junto da “fonte do profeta Elias” no
Monte Carmelo se apresenta com as características de uma fraternidade
local, restrita quanto ao número, que vive dentro do rumo da
espiritualidade do movimento laical evangélico da época,
prestando uma atenção particular aos valores do Êxodo
(por ex.; desapego, sobriedade de vida, trabalho, provisoriedade, simplicidade
de estruturas) procurando o reino do Senhor a ser instaurado até
visivelmente na sua terra – a Palestina – com meios espirituais.
-----------Com
a aprovação de Inocêncio IV, a pedido dos próprios
carmelitas, foi inserido no desenvolvimento do carisma primitivo o elemento
novo da fraternidade apostólica das Ordens Mendicantes: um tipo
de vida que relembra a fraternidade itinerante de Jesus Cristo e dos
apóstolos e que, em vigilante escuta das inquietações
do mundo se apresenta como resposta à época para manifestar
em todas as ocasiões o espírito de solidariedade fraterna
para com o povo mais empobrecido das cidades e das aldeias.
-----------Por
essa própria natureza a espiritualidade do Carmelo, peregrino
do Absoluto é libertadora. Ele dever ser uma resposta crítica
a todas as formas de injustiça.
-----------Neste
meu artigo parto de uma reflexão curiosa, nota-se uma volta ao
caminho de libertação, em nossas comunidades do filosofado
carmelitano no Planalto na cidade de Belo Horizonte. Poder-se-ia dizer
que como um fogo abrasador os alguns estudantes tanto da comunidade
do pré-noviciado e dos frades, se sentiram interpelados a dar
uma resposta as feridas de nosso tempo, assumindo pastorais que até
então estavam esquecidas de nosso meio como um autêntico
trabalho desafiador, ou seja, a descoberta de que o Mistério
de Deus, a semente da Boa Nova não cai do céu, mas já
esta no meio do povo.
-----------Isto
nos coloca novamente no caminho trilhado por nosso pai o Profeta Elias
que não foi só um homem do deserto, e de coração
indiviso, que está diante de Deus, mas também a sermos,
como ele, profetas que se envolvem na vida do povo pobre e lutando contra
os falsos ídolos e reconduzir à felicidade os pobres e
os marginalizados, os que sofrem a violência da injustiça.
-----------O
carmelita faz a opção pelos pobres e se converte a este
mesmo povo. Há na raiz deste retornar a indignação
ética que sentimos diante da realidade: o sentimento de que a
realidade de injustiça que se abate sobre os oprimidos é
tão grave que merece uma atenção ineludível,
a percepção de que a própria vida perderia seu
sentido se fosse vivida de costas para os pobres; a decisão insubornável
de consagrar o ideal carmelitano de uma ou outra forma em favor do povo,
para erradicar o mal do qual é vítima.
-----------Portanto
a nossa missão de carmelitas traz muito presente a palavra de
nosso confrade Frei Vital Wilderink que afirma: “o carmelita não
é o contemplativo para comunicar aos outros coisas contempladas,
mas para comunicar a própria contemplação”.
É importante que o Carmelo ajude o povo a descobrir em sua religiosidade
as sementes da contemplação que estão no meio deles,
e afirmar com muita convicção de que “A
boa nova não cai do céu; já existe no meio do povo.
Mãos à obra, carmelitas”.
1- Círculo Bíblico do Evangelho de Marcos
- Frei Carlos Mesters - CEBI
