Presença carmelitana em
Jaboticabal
Por Frei Pedro Jansen
-----------Caro
frei Alexandre, de repente, no meio da tarde, você me liga de
Belo Horizonte, pedindo que eu registre por escrito a minha experiência
em Jaboticabal. Penso ter ouvido a palavra crônica. Você
aludiu também ao fato de eu estar retornando a Jaboticabal depois
de mais de trinta anos. Não entendi bem qual vem a ser o destino
da minha contribuição. Em primeiro lugar escrevo eu aos
que querem conhecer um pouco da presença dos frades da Província
Carmelitana de Santo Elias em Jaboticabal. Deixo várias questões
em aberto. É convite para que os formandos se façam não
só beneficiários, mas também pesquisadores do assunto
desta carta.
-----------De
muitos fatos que vão ser relatados devem ser investigados pormenores.
Como ponto de partida colocamos o fato que na história da diocese
de Jaboticabal está escrito da seguinte maneira: “Dia 07
de fevereiro de 1947, chegada e posse de Dom Gabriel Paulino Bueno Couto,
como Bispo Auxiliar, até então assistente da Ordem Carmo
em Roma, onde fora sagrado Bispo em 1943. A guerra impediu que voltasse
antes ao Brasil. A vinda de uma comunidade de frades da Província
está ligado a esta nomeação que tem seu desdobramento
na instalação do Mosteiro das Irmãs Carmelitas.
Sempre ouvi dizer que era Dom Gabriel o promotor deste fato. Dom Gabriel
veio com a saúde abalada de Roma e a doença do pulmão
se manifestou logo. Ele continua bispo auxiliar de Jaboticabal, mas
vai morar em São José dos Campos, sendo alguns anos mais
tarde bispo auxiliar da diocese de Taubaté. Em 1950 é
nomeado um novo bispo para a diocese de Jaboticabal com o título
de coadjutor, ou seja, com direito a sucessão.
-----------A
diocese de Jaboticabal foi instalada na Paróquia central na cidade,
tendo como Padroeira Nossa Senhora do Carmo. Isto significa que a invocação
à Nossa Senhora do Carmo precedeu à vinda dos frades e
das freiras. Como isto aconteceu eu ainda não descobri. Consta
o nome de uma família portuguesa como doadora do terreno em que
foi erguida a matriz de Nossa Senhora do Carmo. Agora se esta família
impôs ou sugeriu a invocação não sei dizer.
-----------Desde
que chegaram aqui, os frades da Província assumiram a Paróquia
Nossa Senhora Aparecida. Esta e a Catedral formavam, em 1948, as duas
únicas paróquias no município. A matriz da nossa
paróquia estava em construção. As obras tinham
sido iniciadas pelos frades Agostinianos com base na cidade de Franca.
O Mosteiro fica dentro dos limites da paróquia. Não sei
dizer se nós assumimos a paróquia porque os fades Agostinianos
queriam ir embora ou se tiveram que ir embora porque nós chegamos
para ter o Mosteiro dentro dos limites de uma paróquia confiada
a nós.
-----------Entre
os frades nos primeiros 20 anos, em ordem cronológica podemos
citar, entre outros: Frei Policarpo na Leeuwen, Frei Emílio ter
Beke, Frei Raimundo Lui, Frei Cirilo Alleman, Frei Henrique Tolsma,
Frei Martinho Laarman, Frei Romualdo, Frei Tito Franckort, Frei Ângelo
Charantola, Frei Geraldo Meijer, Frei Bartolomeu Beuwer, Frei Celestino
Lui, Frei Batista Wanders, Frei José Aparecido, Frei Tadeu Passos
Camargo, Frei Pedro Canísio Jansen.
-----------A
situação geral da região em termos econômicos,
sociais e culturais, e do município em particular, caracterizava
a proposta pastoral da paróquia. A maioria da população
municipal morava no interior, espalhada por chácaras, sítios
e fazendas. Era predominantemente a agricultura em regime familiar.
Na raiz desta realidade estava o fato do povoamento da região
pela imigração italiana, especialmente do Tirol e da Calábria.
O produto principal era o café, seguido por algodão, amendoim,
milho e cana de açúcar. Nos anos sessenta, por escassez
de açúcar no mercado internacional estimulou-se na região
o aumento da capacidade de moagem. Pouco tempo depois, com a alteração
da linha diplomática brasileira cresceu a produção
de algodão. Com o programa do governo de estimular a produção
de álcool a cana tomou conta da terra arável e transformou
os sitiantes em bóias-frias e moradores dos bairros mais pobres
da cidade. As capelas rurais perderam sua freguesia. Este processo estava
em andamento quando da minha primeira passagem por Jaboticabal.
-----------No
último capítulo foi me feita à solicitação
de ser pároco em Jaboticabal. Eu tinha razões de sobra
para não sair de Angra dos Reis e o povo não queriam que
eu partisse. Entretanto eu já tinha mudado 10 vezes e uma a mais
não faria mal. O povo de Angra chiou, mas não podia deixar
de considerar que eu completava sete anos em Angra. Depois de 36 anos
não se pode dizer que se volta. Você e a realidade se transformam.
Jaboticabal continua município com menos de cem mil habitantes.
Cidade pequena. Tem cinco paróquias. Transformou-se em cidade
universitária pelo Campus de Jaboticabal da UNESP. Tem uma dúzia
de faculdades.
-----------A
nossa paróquia tem uma área de classe média baixa
e uma grande área de classe popular e pobre. Por divisão
de paróquia para fundar uma nova, a matriz acabou ficando totalmente
fora do centro. Nos bairros populares não temos (ainda) nenhum
ponto de apoio como embrião de um centro comunitário.
Os bairros populares distam mais ou menos três quilômetros.
-----------A
paróquia se movimenta a partir dos movimentos: Neo-catecumenato,
RCC, MCC, Vicentinos, Liga Católica, Ordem Terceira do Carmo,
Grupos de Canto, Grupos de Liturgia e um Grupo de Ministros. Existe
uma inversão. Os grupos agem como se a paróquia devesse
estar a serviço deles e não eles a serviço da comunidade
paroquial. Regularmente surgem pequenos conflitos.
-----------Vejo
que a principal tarefa aqui é criar a inspiração
de que o caminho da salvação é ser e ter consciência
de Povo de Deus e agir como tal. A celebração de Pentecostes
foi organizada em cima de uma intensa celebração da Palavra
acontecendo em grupos pelas ruas do bairro.
-----------O
povo acolheu com muito carinho e demonstra generosidade em querer ajudar.
-----------Frei
Alexandre. O que eu pude colocar no papel, em curto prazo é o
que está aí. Faço votos que sirva para alguma coisa.
Quem quiser conhecer melhor a história daqui, venha estudar e
pesquisar "in loco", com saudações a todos.
Grande abraço.
Frei
Pedro Jansen,
Pároco da paróquia carmelitana em Jaboticabal
