A Cuba
de Fidel Castro
---------Durante
o retiro das irmãs carmelitas nos dias 26 a 29 de outubro de
2005, fui sentindo que havia um assunto silenciado que parecia estar
presente mas que não era conversado. Era o regime político
em que o povo vive ou é obrigado a viver e conviver. Não
dava para eu saber como as pessoas o encaram. Pois quase não
se conversa. Apenas alguma piada, como no tempo da ditadura no Brasil.
Nas conversas com as pessoas ouve-se mais coisa negativa do que positiva.
É difícil para mim poder averiguar com exatidão
a situação real do povo, pois passei apenas uma semana
em Cuba. Ouvindo as pessoas sinto que quem vive perto do povo, fala
a partir do coração e a partir daquilo que sente e sofre
em contato com o povo.
---------Notei
muitas coisas positivas. As pessoas não têm medo de sair
na rua com perigo de ser assaltadas. Não há crianças
abandonadas nem meninos de rua. Não há propaganda de
produtos nas ruas, como em todos os outros países. Ao longo
das rodovias, isto sim, existe uma propaganda cansativa do regime,
da revolução, com frases das figuras principais e dos
comandantes. Na Televisão não há notícias
de assassinatos e assaltos. A saúde é gratuita, a educação
também. Na TV aparece muita informação cultural.
---------Com
relação à religião, a situação
melhorou um pouco depois da vinda do Papa. O Papa foi acolhido com
entusiasmo, mas como chefe de Estado e não como líder
religioso. Antes da vinda do papa, Natal era um dia comum de trabalho,
e não era festejado. Agora já é um feriado. No
passado, todos os colégios e escolas foram desapropriados e
declarados propriedade do Estado. As Congregações e
as Ordens só ficaram com a própria residência
e a Igreja. Nada mais! O resto era e continua sendo do Estado. Muitos
religiosos e religiosas saíram de Cuba ou foram obrigados a
sair. Os Carmelitas descalços continuaram na Igreja no centro
da cidade de Havana. Agora, depois da vinda do Papa, já se
pode fazer reunião nas casas. Pouco a pouco, várias
Congregações voltaram ou congregações
novas estão chegando em Cuba. A freqüência da religião
é em torno de 1% (um por cento). Depois de quase cinqüenta
anos de .revolução., diminuiu muito. Diminuiu também
porque, penso eu, a Igreja não soube ler os Sinais dos Tempos
e, desde o início, ela se colocou na oposição,
sem enxergar o ideal positivo que a .revolução. procurava
realizar. Não procurou ser uma voz crítica no sentido
positivo dentro do movimento revolucionário, e tornou-se uma
força do contra e da contra-revolução. Junto
com o diabólico embargo dos USA, tudo isto fez com que Cuba
fosse obrigada a recorrer à Rússia para poder sobreviver
e não ser estrangulada.
---------Fidel
Castro tem um nome! Ele representa um anseio que está no coração
de muita gente no mundo inteiro. Ele conseguiu derrubar o esquema
de morte e de exploração do neoliberalismo. Mas acho
que ele não se manteve atualizado e procura concretizar as
idéias tão boas de igualdade, de participação
e de justiça, através de esquemas de convivência
que, no decorrer destes quase 50 anos de revolução,
acabaram desatualizadas. Agora estes mesmos esquemas revolucionários
estão destruindo no coração das pessoas o ideal
tão bonito da revolução.
---------Comparando,
Fidel foi aclamado como Ciro, o rei da Pérsia, que, na época
do cativeiro, foi chamado até de Messias. Mas Ciro acabou sendo
um opressor. No começo, Fidel não teve o apoio da Igreja
nem dos Estados Unidos, nem dos outros países da América
Latina. Ficou sozinho. Naquela época, a onda era a Rússia
e, querendo ou não, para poder salvar o ideal da revolução,
ele foi obrigado pela conjuntura tanto política como religiosa,
a buscar apoio na Rússia. Isto o levou a opções,
algumas ditadas pela Rússia, outras ditadas pela conjuntura,
que, a longo prazo estão levando à destruição
do ideal revolucionário. Há coisas muito positivas como
a preocupação com a saúde e a educação.
Mas para controlar a educação e escapar da contra-revolução,
ele fez com que a educação fosse subtraída da
influência da Igreja e da família e fez com que a juventude,
dos 14 a 23 anos de idade, fosse formada e educada em centros de internato,
distantes da família e da influência da Igreja. Isto
funciona assim até hoje. Tentou reconstruir a educação
a partir de novos núcleos comunitários, espécie
de sovjets cubanos, animados pelos ideais da revolução.
---------Na
realidade, ele criou algo que não é natural no ser humano.
Criou uma vida comunitária que não vem de baixo, do
coração, da família, mas vem de idéias
que não estão em sintonia com esta exigência básica
da pessoa humana. Junto com isto fez a planificação
da agricultura e obrigou os camponeses a entrar em um esquema de produção
que contraria a tradição deles, sobretudo agora, depois
da implosão da União Soviética. O sistema anônimo
de cooperativas faz com que o camponês se desinteresse e não
consegue criar em si o mesmo interesse que tinha antes pela sua comunidade
natural. O desinteresse do agricultor diminui a produção
e, diminuindo a produção, diminui o alimento na mesa
do povo. Junto com a desintegração da Rússia,
a fome bateu na porta e agora tudo está racionado e Cuba empobrece
a olhos vistos.
---------A
juventude vive nos internatos, mas o jeito de se vestir, de andar,
de cantar, os seus ídolos, são os mesmos do mundo inteiro.
Comparando: mantém-se a roupa que era nova 50 anos atrás,
mas que agora está desbotada e gasta, feia e nada agradável.
Por baixo, de maneira invisível, está nascendo uma Cuba
nova que ninguém conhece, porque o povo não fala e não
se pronuncia.
---------Fidel
continua falando, mas ele tem mais de 80 anos. Convoca o pessoal para
a praça e o povo vai, porque não indo terá problemas.
Tudo é controlado. A polícia está em todo canto,
invisível e visível ao mesmo tempo. É graças
a este controle tão rígido que o regime se mantém,
pois a ilha é pequena.
---------Rezo
a Deus, para que Fidel Castro tenha juízo e abra a convivência
para readquirir a simpatia dos grupos cristãos conscientes
que querem uma sociedade nova, mas não se sentem atraídos
a colaborar com este sistema do qual sentem que as famílias
não concordam. Dá pena de ver como um país como
este com um ideal tão grande e tão bonito acabe implodindo
por falta de entusiasmo.
---------Se
a Teologia da Libertação pudesse entrar com a sua cara
verdadeira, se o povo pudesse ter acesso à leitura libertadora
da Bíblia, se os grupos cristãos pudessem organizar-se
em comunidades naturais de famílias, independentemente dos
sindicatos e grupos organizados do partido, mas sem ser contra, creio
que poderia ser uma injeção de ânimo, e as casas
receberiam uma nova pintura, haveria de novo flores nas janelas e
as roupas seriam mais vistosas e bonitas, alegria para os olhos e
o coração!
frei Carlos Mesters,
carmelita
cmesters@ocarm.org