VI FÓRUM
SOCIAL MUNDIAL
Um mundo democrático-participativo
e socialista em construção
Frei Gilvander Luís
Moreira[1] e Delze dos Santos Laureano[2]
Em memória
de Pedro, Roberto Tadeu, Taís e Thiers e aos demais estudantes
da UFMG que tiveram interrompido o sonho de participar do 6o FSM
devido ao acidente no dia 23/01/2006 em Ariquepa no Peru.
1 – Introdução
Partilhar uma experiência
vivida é sempre um grande desafio. Nenhum de nós,
participantes do VI Fórum Social Mundial será capaz
de relatar na integralidade todos os temas discutidos. Nem mesmo
fazer uma análise absolutamente isenta dos acontecimentos.
O tamanho do evento e a multiplicidade de oficinas já são
as primeiras dificuldades. Some-se que qualquer ponto de vista é
sempre um recorte. O nosso olhar, marcado pelo aprendizado na história,
bem como o lugar social e político, acompanha cada um/a de
nós, sujeitos protagonistas. Essa limitação,
porém, não pode inviabilizar o desejo de multiplicar
a experiência vivida e de somar mais essa contribuição
- a da efetiva participação no evento -, aos diversos
esforços dos movimentos sociais, para entendermos, na atualidade,
a crise que vivemos e os obstáculos que teremos de transpor,
de mãos dadas, com tantos outros atores espalhados pelo mundo
inteiro.
Poderíamos
utilizar a metáfora de ser o Fórum Social uma casa
com grandes portas e diversas janelas. Durante o encontro entramos
por algumas portas e olhamos a partir de determinadas janelas. O
conhecimento de literaturas afins e a participação
em outros eventos similares vão formando a nossa capacidade
de compreender a realidade político-social-econômico-cultural
que nos cerca, para em sintonia com diversas outras iniciativas
podermos juntos apostar em um Outro Mundo Possível, socialista,
é claro!
2 – A Venezuela
como sede do evento
Caracas, capital da
Venezuela, foi o palco da 6a edição do Fórum
Social Mundial – VI FSM – de 24 a 29 de janeiro de 2006,
que contou com a participação de mais de 80 mil inscritos
em mais de 2 mil atividades, geridas por 2.500 organizações,
3.000 voluntários e 4.900 jornalistas. A delegação
brasileira realizou 450 atividades.
Desta vez, o Fórum
foi policêntrico, isto é, aconteceu no continente Americano,
em Caracas; na África, em Bamako (Dali, na África);
e na Ásia, em Karachi (Paquistão) e em Bancoc, na
Tailândia. Antes do VI FSM aconteceram, em Caracas, os Fóruns
Mundiais da Educação, da Saúde e das Autoridades.
A Venezuela tem nos
dias atuais uma população de 26 milhões de
habitantes. Na Grande Caracas estão cerca de 5 milhões.
Grande parte da cidade está situada em um vale rodeado de
montanhas. O clima é ótimo com uma temperatura amena
e sem ventos fortes. A chuva fina marcou presença durante
todo o encontro. Caracas está cercada de milhões de
favelados dependurados nos morros o que contrasta com as áreas
elegantes da cidade, onde algumas construções modernas
e uma maioria de prédios que lembram o apogeu da arquitetura
na década de 50 no Brasil. Do centro da cidade até
o Aeroporto Internacional de Maiquetia “Simão Bolivar”,
nós visitantes tivemos de serpentear por uma estrada estreita
cercada de barracos de ambos os lados nas encostas montanhosas.
As áreas de riscos lembram a tragédia de 1.999 quando
aproximadamente 20 mil venezuelanos morreram vítimas de um
enorme deslocamento de terra no estado de Vargas.
Do Brasil éramos
mais de 6 mil lutadores/as: delegados de dezenas de entidades, participantes,
jovens, adultos, gente da melhor idade, intelectuais, líderes
comunitários, artistas, enfim, um pouquinho de Brasil em
cada metro quadrado do Fórum.
Dos Estados Unidos
vieram mais de 1.000 socialistas, anti-Bush. Sinal de que não
devemos ser impiedosos com grande parte do povo norte americano
e sim com o governo.
O governo bolivariano
liderado pelo presidente Hugo Chávez deu apoio irrestrito
ao evento. Podemos citar a liberação do Metrô
para os participantes, que circularam de graça com muito
conforto, a isenção da taxa aeroportuária e
o lanche gentilmente servido pelos voluntários a cada tarde
nos locais de maior concentração.
3 – A Revolução
Bolivariana na Venezuela: um povo que está se libertando
Além de participar
de muitas conferências, seminários, oficinas e debates,
conhecemos aspectos da realidade venezuelana que nos marcaram indelevelmente.
São dezenas de iniciativas da revolução bolivariana
que visam a inclusão social.
Um grande mutirão
pela educação acabou com o analfabetismo no país.
O povo controla e comercializa o petróleo, grande riqueza
natural da Venezuela, que agora serve para melhorar a vida das pessoas
e não mais aumentar o lucro das multinacionais. Acima de
tudo, encontramos um povo cheio de esperança, uma juventude
em sua maioria esclarecida e comprometida com a organização
popular, com a construção de uma democracia verdadeiramente
participativa.
Na Venezuela, o povo
está cheio de esperança. Só ouvimos críticas
a Hugo Chávez por parte dos canais de TV que estão
nas mãos das elites e por uma minoria privilegiada que sempre
olhou para o próprio umbigo. Internamente, entre os pobres
e marginalizados pelo regime anterior não vimos nenhuma crítica
ao processo implementado por Hugo Chávez.
Quatorze mil Mercados
Populares - MERCAL - alimentam cerca de 14 milhões - dos
26 milhões - de venezuelanos, onde os preços são
de 30 a 50% mais baixos do que nos mercados privados. Visitamos
um desses mercados. Cada pessoa pode comprar somente o que consome
sua família. É proibida a compra em grande quantidade,
o que poderia viabilizar a revenda.
Eis uma amostra de
preços:
Nos Mercados populares
------ Nos mercados privados
1 kg de feijão R$1,00 (= 1.000 bolivares), ----- R$5,00.
Milho: R$0,79 -----
R$1,25
Óleo: R$2,30
----- R$3,25
Leite: R$4,70 -----
R$8,90
Macarrão: R$1,20
----- R$3,40
A gasolina é
quase de graça. Custa 0,07 centavos o litro. Com R$ 4,20
se enche o tanque do automóvel. Tudo isso com o assentimento
dos defensores da Constituição da República
Bolivariana da Venezuela que prescreve ao Estado o dever de regular
as relações comerciais no país.
Na Venezuela bolivariana,
todos os estudantes que cursam universidades públicas ou
que ganham bolsas de estudos devem prestar serviço social
à comunidade. Deve haver uma contrapartida para a sociedade
de quem usufrui o dinheiro do povo, via impostos, para estudar.
Estão sendo investidos na educação 7,5% do
PIB – Produto Interno Bruto.
O governo de Hugo
Chávez está apoiando a instalação, regulamentação
e funcionamento de rádios comunitárias. Não
há burocracia para conseguir a documentação
e o governo ajuda financeiramente na compra dos equipamentos para
se fortalecer a comunicação alternativa e mais interativa.
Enfim, percebemos
que, na Venezuela, a democracia participativa está irrompendo
como um vulcão. Essa, a principal garantia da revolução
em qualquer parte do mundo. Se a nossa percepção está
correta, caberá à História confirmar ou desmentir.
O que trouxemos em nossa bagagem de volta foi a certeza de dias
melhores para todos e a luta pela afirmação de um
povo soberano e solidário com toda a América Latina.
A Venezuela está se tornando um país de todos.
4 - Hugo Chávez
no FSM
Os intelectuais venezuelanos
estão convictos de que uma revolução não
se sustenta no carisma de uma só pessoa. O fato de o presidente
Hugo Chávez ter formação militar também
pode ser um complicador para a implementação de um
regime democrático em qualquer lugar do mundo. No entanto,
mesmo conscientes dessas dificuldades, reconhecem os cientistas
políticos a grande liderança do presidente e a importância
de sua atuação como líder carismático
e como militar na liderança do processo revolucionário
que está caminhando a passos largos na Venezuela. Essas observações
foram por nós confirmadas no dia 27/01/2006, das 19:00 às
22:30 hs, quando o presidente Hugo Chávez, no estádio
Poliedro, falou por mais de três horas para os participantes
do VI FSM.
Saímos do encontro
convictos de que ele é realmente uma pessoa extraordinária,
sorridente, carismático, culto, estrategista e além
de falar bem ainda canta com uma voz afinada. Até o momento,
o que vimos e ouvimos confirmam a impressão que tivemos do
grande “comandante”. Chávez, em seu discurso,
resgatou a memória histórica revolucionária
de Bolívar e de todos os/as revoluncionários/as da
história, passando por Jesus Cristo. O discurso dele é
uma verdadeira aula de história a partir dos pobres que lutam
contra os sistemas opressivos. Analisa o presente com olhar crítico
e injeta esperança nas pessoas, pois cultiva a utopia: a
construção de uma sociedade socialista, democrática,
popular na América Afrolatíndia.
Os presidentes Hugo
Chávez e Evo Morales, esse em seu primeiro dia de governo
na Bolívia, firmaram oito convênios que visam a integração
entre os dois paises. O governo venezuelano venderá petróleo,
a baixo preço, para a Bolívia e ajudará a superar
o analfabetismo, como já fez na Venezuela. Ofereceu 5 mil
bolsas de estudos para jovens bolivianos cursarem universidade na
Venezuela. Cuba também ofereceu outras 5 mil bolsas.
Hugo Chávez,
ao tempo em que estrutura internamente o país, demarca sem
rodeios sua política externa. Anunciou com intrepidez: “Mr.
Danger (O Perigoso) chefia o império mais cínico,
mas hipócrita e mais assassino de toda a história
da humanidade. Por mais poderoso que seja o império de Mr.
Danger não vai conseguir nos vencer. Já detectamos
espionagem dos EUA na Venezuela. Advirto ao governo dos EUA: a próxima
vez que encontrarmos espiões na Venezuela, vamos mandá-los
para o cárcere.”
Acerca da importância
da união dos povos latino-americanos, afirmou Hugo Chávez:
“não dá para exigir que Lula seja igual a Chávez,
ou que Kirtchner seja igual Evo Morales ou Fidel. Estamos juntos,
marchando na mesma direção. A união dos povos
latino-americanos é fundamental para derrotarmos o imperialismo
estadunidense e o neoliberalismo. A ALCA já foi enterrada.
Bush não conseguiu aprová-la como queria”, arrematou
Chávez.
5 - Colômbia:
um povo agredido pelo império
Uma delegação de 15 mil colombianos deixou os participantes
comovidos e indignados com a covarde agressão militar que
os Estados Unidos estão orquestrando na Colômbia. O
presidente Álvaro Uribe, “pau mandado” do Mr.
Danger dos EUA, está promovendo, mediante o chamado Plano
Colômbia, não uma guerra contra o narcotráfico,
mas uma guerra contra o povo. Milícias paramilitares estão
expulsando os camponeses de suas terras, só com a roupa do
corpo.
O governo da Colômbia
é fascista e representante de uma oligarquia violenta. São
37 mil mortos por ano na guerra interna na Colômbia, sob o
fomento dos EUA. Filhos de parlamentares colombianos são
embaixadores em 32 embaixadas. A Lei de Justiça e Paz, na
Colômbia, ao atribuir uma pena máxima para um narcotraficante
é 8 anos, legitima o narcotráfico. Os narcotraficantes
controlam 35% do Congresso daquele país. O Plano Colômbia
recebe muito dinheiro dos EUA. Hoje existem mais de 800 militares
ianques na Colômbia. 66% dos colombianos estão abaixo
da linha de pobreza. Na Colômbia, 20% da população
tem 80% da terra, enquanto 50% tem somente 15% da terra. Além
de 6 milhões de indigentes, 14 mil empresas médias
e pequenas estão falidas após 14 anos de neoliberalismo.
19% do orçamento do estado vai para a guerra. 39% para o
pagamento dos juros da dívida e(x)terna que já chega
a 75 bilhões de dólares. A Colômbia, hoje, é
a ponta de lança do imperialismo de Bush para dominar toda
a América Afrolatíndia.
Fatos como esses,
promovidos por um regime desumano, causam enormes prejuízos
não apenas para o povo colombiano, que se vê cada vez
mais distante de uma saída para a reorganização
do tecido social no país, mas também para toda a América
Latina, vítima dessa mesma política fundamentalista
imposta pelo império do norte. Todos têm consciência
que a guerra na Colômbia só terminará com a
realização da reforma agrária.
6 - Cuba: povo solidário
e grande de coração
Na Venezuela, atualmente,
existem cerca de 20 mil médicos cubanos alavacando uma revolução
no sistema público de saúde. São responsáveis
pelo atendimento primário da população, algo
parecido com o médico de família. Estão nas
favelas e bairros pobres; lá vivem e atendem com competência
e dedicação os pobres. Fomos ao encontro de alguns
deles. Em conversa com duas médicas e um médico, ouvimos,
entre tantas coisas, o seguinte: “Não viemos aqui para
ganhar dinheiro, mas por amor ao próximo. Estudamos medicina
para cuidar das pessoas, nunca para ganhar dinheiro. Quando terminamos
o curso de medicina em Cuba, fazemos um juramento de cuidar sempre
da vida ameaçada em Cuba e em qualquer país do mundo.
Quando se é de esquerda, socialista, somos mais cristãos,
pensamos mais no próximo. Todo o povo do mundo é meu
próximo, é minha família. Somos e devemos nos
comportar todos como irmãos. Vivo para servir a sociedade.
Em Venezuela, recebemos apenas uma ajuda de custo para pagar metrô,
ônibus coletivo e comprar alimentos e alguma coisa mais necessária.”
O estipêndio recebido pelos médicos cubanos não
chega a um salário mínimo da Venezuela, que é
cerca de R$405,00.
Outra médica
cubana nos alertava: “Em Cuba as famílias têm,
no máximo, dois filhos. As pessoas não devem ter muitos
filhos, pois cresce demais a população e há
ocupação humana em todas as áreas, o que compromete
o meio ambiente. As florestas são dos animais e dos indígenas.
Não podemos acabar com elas. Além do mais, nas famílias
com muitos filhos a mulher é a mais prejudicada. Em Cuba
não existem analfabetos. Todos estudam, no mínimo,
12 anos. Somos livres e soberanos. Somos autônomos para tomar
as decisões importantes em nossas vida.” Como reflexão
para a ética médica, ouvimos: “Os médicos
pesquisadores cubanos testam os novos remédios em si mesmos.
”
Outro cubano, ao responder
à pergunta: “E Cuba após Fidel?” disse:
“Essa é a pergunta que nos fazem tanto os amigos quanto
os inimigos. Se querem saber, gostaríamos que Fidel não
morresse nunca. Mas sabemos que um dia ele morrerá, porque
todos morrem. Fidel Castro deixará de existir fisicamente,
mas suas idéias, sonhos, utopia e o projeto socialista continuarão
sempre vivos. Em Cuba há três gerações
revolucionárias, os contemporâneos de Fidel, uma geração
mediana e os jovens. Em todas os níveis de organização
da revolução cubana há representantes das três
gerações. Quando Fidel morrer, ele estará mais
vivo do que nunca nos corações dos 11 milhões
de cubanos e em tantos pelo mundo afora. Em Cuba há muitos
líderes capazes de continuar o trabalho de Fidel.”
Todos os cubanos que
encontramos exprimem uma enorme paixão pelo socialismo cubano
e uma indignação muito grande contra o império
de Jorge Bush. “Em nome da liberdade (deles) tentam impor
um modelo hegemônico para todo o mundo. Por ameaça
dos EUA a União Européia tem condicionado as parcerias
à Cuba ao fim do Regime Socialista. Isso é um absurdo
pois a mudança de regime político não tem sido
uma condicionante para o fechamento de acordos com outros países,
inclusive aqueles que desrespeitam os direitos humanos, como o próprio
Estados Unidos. Se os Estados Unidos voltarem a invadir Cuba, serão
desmoralizados internacionalmente, pois resistiremos até
a morte. Terão de assumir as conseqüências. Jamais
ajoelharemos aos pés do mais bárbaro dos impérios
de toda a história”, adverte um cubano. Encanta sentir
a humanidade que palpita no povo cubano. É uma injustiça
grave criticar Cuba sem ter conversado demoradamente com vários
cubanos. Quem conhece aquele povo apaixonado pela vida e educado
nos moldes socialistas, defende Cuba. Lá o ser humano é
realmente humano e não mero consumidor capitalista, população
de egocêntricos.
Desde 1959, ano do
triunfo da Revolução cubana, os Estados Unidos implantaram
um bloqueio econômico a Cuba. Isto é discriminação.
Após 1989, com a queda do Muro de Berlin, Cuba passou a sofrer
um duplo bloqueio. A União Européia tem condicionado
firmar acordos com Cuba mediante a mudança do regime político-econômico.
Isto é inaceitável. Contraditoriamente, a União
Econômica Européia estabelece relações
comerciais com países ditatoriais que não respeitam
os direitos humanos. Diante dessa constatação é
que o cidadão cubano reflete: “Por que tanta opressão
contra um país tão pequeno, uma ilha? Estamos constantemente
sendo ameaçados pelos Estados Unidos, onde tem pena de morte,
com freqüência e inclusive para crianças. As relações
econômicas da União Européia com Cuba seguem
os ditames do império estadunidense.”
7 - Pela Retirada
das tropas do Haiti
Dia 27/01/06, houve
uma manifestação em frente à Embaixada do Brasil
na Venezuela para exigir a retirada das tropas de intervenção
do Haiti. Brasileiros, canadenses e haitianos estão juntos
nesta luta. O exército brasileiro não pode ser terceirizado
por Jorge Bush para fazer sua política suja. O grande responsável
pela opressão e miséria no Haiti é o imperialismo
estadunidense. Não é com força militar que
se caminha rumo à reconstrução do Estado haitiano,
primeiro Estado negro a se tornar independente na América
Latina e que, talvez, por isso mesmo, nunca tenha sido perdoado
pelo poderio capitalista por tamanha ousadia. Essas as conclusões
dos manifestantes pró Haiti no Fórum.
8 - União dos povos europeus e latino-americanos
Está crescendo
a união européia e latino-americana na luta contra
o imperialismo dos EUA. Em 1976 iniciaram-se as primeiras cooperações
entre europeus e latino-americanos a partir de redes de solidariedade
internacional. Em 1991 foi criado o Mercosul. A União Européia
tem milhões de investimentos em cooperação
com a América Latina, mas é uma cooperação
ambígua. Há o programa Euro Social. Falta maior participação
da sociedade civil e das ONGs nos projetos de cooperação
entre União Européia e América Latina.
Diante de realidades
como a da Colômbia, já tratada acima, propomos que
as organizações de solidariedade internacional ajudem
na “Campanha Nenhum Centavo para os regimes autoritários”
como o que dá sustentação ao Plano Colômbia.
Que os recursos da comunidade internacional sejam investidos em
programas sociais. Os povos pobres do mundo inteiro devem estar
atentos também para que os recursos aplicados não
sejam apenas uma estratégia imperialista para camuflar as
mazelas sociais causadas pela exploração capitalista.
9 - Solidariedade
que vem do Reino Unido
Diversas organizações
de solidariedade internacional do Reino Unido estão comprometidas
com uma campanha de solidariedade a Cuba. Um documento de repúdio
ao embargo econômico de Cuba pelos EUA foi assinado por 300
deputados da Inglaterra. Estão lutando também pelo
respeito à soberania do povo venezuelano. No projeto de cidades
irmãs, 25 cidades da Inglaterra são cidades irmãs
de 25 cidades da Nicarágua. Em 2006, a prioridade maior será
o apoio ao povo venezuelano, pois o imperialismo de Bush vai “jogar
pesado” para impedir a re-eleição de Hugo Chávez.
10 - Solidariedade
que vem da França
A solidariedade do
povo francês aos povos latino-americanos vem desde Alliende,
há 36 anos. Para o povo francês, 2006 será o
ano do apoio ao povo colombiano, tão sofrido pela agressão
militar dos Estados Unidos em parceria com o governo de Álvaro
Uribe. Os descendentes dos franceses que vivem no Quebec –
um dos principais estados do Canadá -, muito bem representados
no Fórum, com uma delegação de mais de 100
integrantes, também demonstraram disposição
para lutar pela identidade e contra a pasteurização
cultural imposta pelo capitalismo. Reafirmam o desejo de se tornarem
independentes e o respeito às diferenças.
11 - Trabalho escravo,
uma chaga aberta
Participamos de um
seminário sobre Trabalho Escravo, promovido pela Comissão
Pastoral da Terra - CPT. Eis a triste constatação:
o pouco que sabemos é a partir das vítimas. Estima-se
a existência de 12.300.000 pessoas trabalhando em situações
análogas à de escravidão em todo o mundo. Há
12 mil bolivianos sobrevivendo em situação de “escravidão”
no Brasil. Trabalham nas confecções em São
Paulo. A CPT estima a existência de cerca de 25 mil trabalhadores
sobrevivendo em situação análoga à de
escravidão no Brasil. São os trabalhadores das carvoarias,
da monocultura da cana-de-açúcar, do desmatamento
da floresta amazônica e principalmente na pecuária,
onde foram registrados o maior número de ocorrências.
Os escravos da era
moderna não dependem da etnia nem da idade ou gênero.
São negros, indígenas, mulheres, jovens, idosos. Já
se passaram 118 anos após a libertação formal
dos escravos, mas a mesma vergonha marca a história do crescimento
econômico do país. Os estados maiores exportadores
de mão-de-obra são o Piauí e o Maranhão.
O intermediário entre os novos senhores de engenho e as senzalas
de hoje continua sendo o “gato”. Na hora de conquistar
mão-de-obra para o corte de cana, promete um paraíso,
mas o que depois os trabalhadores experimentam é um inferno.
Só na região de Jaboticabal, em 2005, morreram 12
trabalhadores no corte da cana. Muitos, após amargar a escravidão,
desabafam: “Pior que não conseguir trabalho é
não conseguir sair dele.”
Nas novas senzalas,
os trabalhadores são vítimas de promessas enganosas;
estão em alojamentos precários sem nenhuma higiene.
São submetidos a uma jornada exaustiva. Devem cortar 10 toneladas
de cana por dia. São os conhecidos bóias-frias. A
água que consomem é a mesma água suja dada
aos animais. Sem instrumentos de proteção, sem assistência
médica e sem receber salário, vivem em sobressalto,
ameaçados por uma dívida crescente apesar das longas
jornadas diárias de trabalho. Muitos fogem para não
morrer antes do tempo.
A Polícia Federal,
por meio do Grupo Móvel anti-trabalho escravo, já
resgatou milhares de trabalhadores submetidos à escravidão
nos últimos anos. Resgatar escravos é importante,
mais só isso não basta. É preciso desmantelar
a estrutura que viabiliza o trabalho escravo. As maiores causas
são a impunidade, a miséria e o analfabetismo, todas
essas causas filhas do capitalismo que trata o ser humano como mercadoria
e quando não lhe convém, descarta.[3]
Olhando de cima, a
monocultura da cana produz açúcar e álcool
(energia limpa) e é muito atraente, mas olhando a partir
dos trabalhadores escravizados é tremendamente devastadora
da pessoa humana e do meio ambiente. O açúcar produzido
nas usinas da monocultura da cana tem o gosto amargo das vidas perdidas,
tem sabor de sangue.
A solução
para o trabalho escravo no Brasil (e no mundo) passa necessariamente
pela realização de uma reforma agrária integral.
Em 2005, a monocultura da cana-de-açúcar cresceu 27%
no Brasil, que é o campeão na produção
mundial de açúcar. Produz 1/3 de todo o açúcar
consumido no mundo. Nos últimos 20 anos, 150 mil postos de
trabalho desapareceram com a mecanização do corte
da cana. A escravidão é um crime contra a humanidade.
12 - Reforma Agrária
integral
De 7 a 10 de março
de 2006 acontecerá, em Porto Alegre, a II Conferência
da FAO – ONU - sobre Reforma Agrária. Será lançada
a “Campanha Global pela Reforma Agrária Integral”,
isto é, uma reforma que mude a estrutura fundiária,
desconcentrando-a, que seja feita de forma rápida e massiva,
que respeite o meio ambiente, a vida das comunidades tradicionais
e que tenha os camponeses como protagonistas.
No FSM, quem estava
com um boné ou uma camiseta do MST era logo cumprimentado
e elogiado. Foi animador observar como tanta gente pelo mundo afora
conhece, respeita e admira o MST[4] e quer ser solidário
com uma luta que conquistou o respeito pela seriedade e compromisso.
Aumenta o nosso compromisso com esse movimento social que há
tanto luta pela Reforma Agrária integral, nos moldes propostos
pela Constituição de 1988, interpretada a partir dos
princípios fundamentais.
13 - LINUX - o Softwear
livre
Em Caracas, muitas vozes se levantaram em defesa do Softwear livre,
o LINUX. Ficamos sabendo que até a Microsoft, a NASA e o
governo dos EUA estão usando esse modelo de softwear. Em
Uberlândia, sob iniciativa de um vereador, foi aprovada e
sancionada uma lei que obriga a prefeitura a usá-lo. Só
na instalação houve uma economia de 50 mil dólares.
Devemos lutar pela aprovação de lei como esta em todos
os municípios, órgãos governamentais, ONGs,
entidades e igrejas. É uma forma de caminhar a passos largos
na inclusão digital.
14 - Solidariedade
aos 4 estudantes da UFMG
Em Caracas, no VI
FSM, o sentimento que tivemos, após tomarmos conhecimento
do acidente com o ônibus dos estudantes da UFMG que iriam
participar do Fórum, foi o da permanente ausência física
dos jovens companheiros, no entanto, sentimos a presença
viva e marcante deles no nosso meio, nos mesmos sonhos. Assumimos,
assim, o compromisso de redobrar os esforços na luta, porque
eles continuam vivendo de forma plena, e também em nós.
Somaram suas vidas a de tantos mártires pela liberdade. O
sangue deles corre, agora, em nossas veias.
Aos parentes e amigos
lembramos que se a morte é algo irreparável, há
de se entender e dar continuidade ao sonho de quem partiu desta
vida lutando por um mundo melhor. Quando sentirmos saudade deles,
lembremo-nos da miséria dos milhões de crianças,
velhos, dos jovens sem perspectiva de trabalho, doentes e analfabetos
explorados pelo sistema capitalista. Por todos estes lutavam nossos
queridos jovens.
“Não
podemos esperar mais!”, afirmou Hugo Chávez, ao falar
para os milhares de participantes do VI Fórum Social Mundial
em assembléia no estádio Poliedro. Se passarmos os
olhos por toda a América Latina, veremos que o nível
de exploração capitalista e o avanço do neoliberalismo
chegaram no limite.
Aumenta a nossa indignação
saber que milhares de camponeses colombianos são expulsos
de suas terras diariamente pelas milícias paramilitares.
Milhares são assassinados, vítimas de um regime neofascista.
Contra esses o império estadunidense não impõe
o respeito aos direitos humanos.
O compromisso de solidariedade
que assumimos não se restringe às famílias
que perderam os seus entes queridos, mas também aos demais
integrantes da comitiva da UFMG que passaram por horas intermináveis
de angústia e dor em um país estrangeiro. Tudo isso
obriga-nos a assumir a luta dos milhões de trabalhadores
sem terra em todo o continente, a luta contra a perpetuação
do latifúndio no Brasil, pelo fim do trabalho escravo nas
plantações de cana de açúcar, nas carvoarias,
pelo fim do desmatamento da Amazônia. O compromisso com tantas
crianças que perdem a vida tão prococemente nas favelas,
no trabalho degradante antes do tempo. A luta incansável
contra a concentração de riquezas e a opção
pelo agronegócio em detrimento da agricultura familiar. Contra
o modelo de desenvolvimento capitalista falido no mundo inteiro
causador de outras tantas gerações de desnutridos
e analfabetos. Pelo fim da mercantilizaçao da educação
ou da manutenção de um péssimo ensino público,
acrítico, que nega o direito à aquisição
do conhecimento tão necessário a uma vida digna e
cidadã. Universalizam-se diplomas e não conhecimento.
Sejamos solidários
com o povo boliviano, tão expropriado, mas que, agora, se
levanta com a eleição do primeiro presidente indígena
para poder usufruir as enormes reservas de riquezas naturais e caminhar
de forma soberana.
Nenhuma vida se perde
em vão! O sonho de Pedro, Roberto Tadeu, Taís e Thiers
é o que respiramos em Caracas, no VI FSM. Muitas iniciativas
concretas de libertação estão em curso em toda
a América Afrolatíndia. A eleição de
Evo Morales como presidente da Bolívia nos enche de esperança.
De fato, um outro mundo possível está sendo construído.
Como uma estrela,
Cuba ensina como viver uma vida de amor ao próximo, de solidariedade
sem fronteiras e de desprendimento. São 20 mil médicos
cubanos alavancando uma revolução no sistema de saúde
na Venezuela. O povo cubano continua aguerridamente resistindo ao
bloqueio e ao modelo hegemônico do império norte americano.
O povo venezuelano,
sob a liderança do presidente Hugo Chávez, está
empreendendo um processo de libertação muito promissor.
Aos lutadores que
doaram a vida e aos que tiveram interrompido o sonho de participar
do Fórum propomos que, mesmo com o sentimento de perda, ao
invés do vazio da saudade, agradeçamos a Deus por
termos no Brasil tantos jovens que acreditam e lutam por um “Outro
Mundo Possível”, socialista, democrático-participativo
e solidário! Que a luz, a vida e a grandeza de Deus, existentes
em nós, brilhem sempre na lembrança de Pedro, Roberto
Tadeu, Taís e Thiers. Que a vida desses jovens possa ser
motivo de agradecimento a Deus pelo tempo que estiveram conosco
e foram presentes para nós aqui na Terra. Que o seu exemplo
de luta e opção política sejam nossos guias
para toda a vida!
15 – E agora,
José?
Em um Fórum
Social Mundial conhecemos pessoas verdadeiramente humanas e lutas
libertárias que, como árvores mães, vão
construindo, dia-a-dia, em todos os cantos e recantos “Um
Outro Mundo Possível”, necessário e urgente.
Esse novo mundo, portanto, já está sendo construído.
Temos de defender
agüerridamente os povos e os governos de Cuba, Venezuela e
Bolívia. Primeiro, porque sãos povos que estão
em processo de libertação, lutam com destemor contra
o imperialismo e a opressão capitalista neoliberal. Segundo,
porque se estes países, ora estrelas socialistas cintilantes,
forem sofucados, as trevas da indiferença pelo ser humano
cobrirão toda a terra e estaremos em mais uma grande noite
escura, sem a luz da utopia.
Deu para sentir que
a integração político-econômico-social
e cultural dos povos latino-americanos está em curso, de
baixo para cima, com respeito à autodeterminação
de cada povo. A cada Fórum aumenta o número de pessoas
e entidades participantes. Afirma-se a convicção de
que “Um Outro Mundo Possível” há se ser
Socialista. Capitalista, jamais!
Delze dos Santos Laureano
– delzesantos@hotmail.com
Gilvander Luís
Moreira – gilvander@igrejadocamo.com.br
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[1] Frei Carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor
de Teologia e assessor da CPT, CEBs, SAB, CEBI e MST.
[2] Mestre em Direito Constitucional, professora de Direito Agrário
da Faculdade Dom Hélder Câmara, advogada participante
da RENAP – Rede Nacional dos Advogados Populares.
[3] Cf. o livro Vidas roubadas, sobre trabalho escravo.
[4] Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.