Pessoas
com deficiência são nossos mestres – CF/2006
Frei Gilvander Moreira
---------A
Campanha da Fraternidade de 2006, com o tema: Fraternidade e
Pessoas com deficiência, com o lema: Levanta-te e vem para
o meio!, acordou em mim três testemunhos. Êi-los:
---------1º)
No 1o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, uma educadora
me fez a seguinte pergunta: “De onde virá a
revolução integral para a humanidade?”
Eu, simploriamente, respondi: “Marx acreditou que viria do
operariado. Muitos, em 1968, pensaram que viria dos estudantes.
Na década de setenta, no Brasil, se pensou que viria dos
metalúrgicos. Hoje, muitos pensam que virá dos Sem
Terra.” A jovem educadora me advertiu: “Acredito
que virá das pessoas com deficiência. Outro dia assistimos
um exemplo disso nas olimpíadas dos deficientes mentais em
Petrolina/PE. O jovem Lucas, pessoa com deficiência mental,
estava nadando na frente e começou a ser aplaudido. Com os
aplausos ele percebeu que estava na frente. Olhou para trás
para ver aonde estava o seu concorrente, o Adriano. Ao ver que Adriano
vinha mais atrás, Lucas parou e esperou o amigo para poder
chegar juntos. Assim partilharam o primeiro lugar. Eis aqui um exemplo
de não contaminação com a lógica da
concorrência, a lógica do capitalismo.”
---------2º)
Roberto Malvezzi (Gogó), assessor da Comissão Pastoral
da Terra, recordou-nos o seguinte sobre Normais e Deficientes:
“Sthephen Hawking é tetraplégico e
físico genial. John Nash, “uma mente
brilhante”, esquizofrênico, prêmio Nobel em economia.
Tereza D’Ávila e João da Cruz
eram depressivos profundos, tornaram-se santos buscando o equilíbrio
emocional pela mística. Ibiapina, um cearense
que foi delegado, juiz, deputado e, finalmente, padre, missionou
o sertão de 1850 a 1870. É o pioneiro na construção
de cisternas nos semi-árido e dizia de si mesmo que era um
“angustiado”. Lembro também de Socorro,
de Campo Alegre de Lourdes, idade mental de cinco anos, sem genialidade
alguma, sem nenhuma contribuição econômica à
sociedade, era a alegria da rua pelo extraordinário senso
de humor.
---------No
entanto, Hitler era normal. Stalin
era normal. Bush é normal. Os economistas
que inventaram a especulação contemporânea são
normais. O pessoal do COPOM – Conselho de Política
Monetária - é normal. Os que destroem as florestas,
os solos, as águas, são normais. Os operadores das
Bolsas parecem possessos, mas são normais.
---------Portanto,
a dignidade de um ser humano é muito mais profunda que sua
normalidade ou deficiência. A contribuição ou
prejuízo de cada um para a sociedade não obedece a
padrões de normalidade. Os problemas da humanidade estão
nos normais. Respeitar o ser humano para além das aparências,
pela grandeza infinita que cada um carrega em si. É só
isso que nos pede a Campanha da Fraternidade.”
---------3º)
Dorcelina Oliveira Follador - mulher com deficiência
física – se tornou prefeita do município de
Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. Com apenas 36 anos, foi assassinada
dia 30 de outubro de 1999, com 08 tiros pelas costas, na sua casinha
na periferia de Mundo Novo. Provavelmente, traficantes internacionais
de drogas, fazendeiros, contrabandistas e máfia de tráfico
de crianças patrocinaram a morte da prefeita de Mundo Novo/MS,
mas o sangue dela continua circulando em nossas veias. Os sonhos
de libertação dela continuam sendo empunhados por
muitos. Enganaram os que barbaramente a martirizaram, em uma tocaia.
Dorcelina, pessoa de origem humilde, sem-terra, educadora, socialista
e, acima de tudo, mulher. Ainda era artista plástica, mãe
e esposa, cresceu na luta dentro do MST e do PT, deixou órfãos
suas duas filhinhas Indira, de 4 anos, e Jéssica, de 8 anos.
Como prefeita fez uma inversão de prioridades. Instituiu
projetos que beneficiam os empobrecidos e excluídos, tais
como: a) Renda-mínima; b) Bolsa-escola; c) Apoio irrestrito
aos Sem Terra na luta pela Reforma Agrária; d) Férias
para os pequenos produtores agrícolas; e) Agroindústria
familiar; f) Casa da Gestante etc. Por isso vinha sendo ameaçada
de morte. Mas os ameaçadores não sabiam que a estavam
ameaçando de Ressurreição também.
Dorcelina pagou com a vida por ter sido guerreira. Uma pessoa com
deficiência física, Sem Terra, que moralizou a administração
pública, mesmo contrariando interesses escusos de uma oligarquia
nefasta.
---------No
3º Fórum Social Mundial, uma pessoa com deficiência
foi levada ao palco e, em alto e bom som, soltou palavras de fogo:
“Vim das cidades invisíveis, onde vivemos, mas
não somos reconhecidos e nem respeitados. Prefiro viver nos
braços do meu próximo por carinho e não apenas
por necessidade.”
---------Parodiando
Dom Pedro Casaldáliga podemos dizer: “Ai de um
povo que não acolhe as pessoas com deficiência e que
não os têm como mestres.”
Frei Gilvander Moreira,
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br