Vandalismo?
Ou clamor por justiça?
Frei Gilvander Moreira(1)
--------------------------“Um
rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem ---------------------------------violentas
as margens que o oprimem.” (Bertold Brecht)
----------A
ocupação do salão verde da Câmara dos
Deputados por parte de integrantes do MLST – Movimento de
Libertação dos Sem Terra - (dia 06 de junho último)
resultando em feridos e 580 presos, parece ter sido, no mínimo,
um sintoma dos chamados “Sinais dos Tempos” que apelam
a um esforço coletivo de mudança (conversão)
pessoal, social e institucional. Havia pouco, a sociedade tinha
assistido a sintomas idênticos.
----------A
reação costumeira, por parte de pessoas, instituições
e mídia, é esbravejar contra os sem-terra, condenando-os
irrestritamente. Vandalismo? Violência? Arruaça? Atentado
à democracia? (Que tipo de democracia?). Dizer um simples
‘sim’ a estas perguntas é tapar o sol com a peneira,
é colocar esparadrapo em cima de ferida, é arrumar
bodes expiatórios. A panela de pressão da pseudo democracia
está prestes a explodir!
----------O
MLST tinha a seguinte pauta de reivindicações: 1)
Revogação da Medida Provisória 2183-56/2001,
que proíbe ao INCRA vistoriar latifúndios que tenham
sido ocupados por movimentos que lutam pela terra, por dois anos.
2) a atualização imediata dos índices de produtividade,
considerados pelo INCRA para definir se um latifúndio é
produtivo ou não. 3) a votação imediata da
PEC que permite a expropriação de propriedades identificadas
com trabalho escravo para serem destinadas à reforma agrária,
4) a desapropriação de propriedades que estejam em
débito com a União, 5) a punição para
os crimes ambientais praticados pelas grandes empresas do agronegócio
e também as poluidoras urbanas, 6) a recuperação
de terras griladas da União pelo agro-negócio para
fins da reforma agrária e 7) a re-estatização
da Companhia Vale do Rio Doce, privatizada pelo governo FHC e com
pendência judicial sobre a validade do leilão. Todas
estas, reivindicações legítimas, encampadas
também pela Via Campesina.
----------Desde
1997, quando FHC editou um decreto e posteriormente a Medida Provisória
2183/2001 que proíbe vistoriar latifúndios ocupados
pelos sem-terra, permanece um bloqueio jurídico à
realização da Reforma Agrária no Brasil. Lula,
submisso à bancada ruralista neste ponto, ainda não
teve a devida vontade política para revogar esta medida esdrúxula
e encaminhar para o Congresso Nacional proposta que atualize os
índices de produtividade a serem considerados pelo INCRA.
Proibir ocupar latifúndios improdutivos é a mesma
coisa que proibir fazer greve, direito prescrito na Constituição.
Ocupação é um meio justo e legítimo
de forçar o trem da reforma agrária a andar.
----------Os
índices de produtividade vigentes são de 1976, estão
defasados 30 anos. A produtividade cresceu em uma progressão
geométrica com as pesquisas realizadas. Mesmo sem o excesso
da tecnologia do agronegócio que depreda o meio ambiente
e do uso indiscriminado de agrotóxicos pode-se conseguir
produtividade média muito superior àquela considerada
pelo Governo para aferição do cumprimento da função
social pela propriedade. Se for feita a atualização
dos índices de produtividade, milhões de hectares
de terras, consideradas produtivas nos parâmetros atuais,
poderão ser disponibilizadas para fins de reforma agrária.
----------Diante
dessas contestações, vemos que não apenas os
quatro milhões de famílias de sem-terra, mas a maioria
da população, esta submetida a um vandalismo promovido
pelos poderes legislativo, executivo, judiciário e midiático.
----------Dom
Oscar Romero, pastor profético do povo de El Salvador sob
ditadura militar, alertava: “Os pobres têm o direito
e o dever de se organizarem e lutar por seus direitos.”
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) sempre esteve ao lado
dos trabalhadores e reafirma: “Os sem-terra têm o direito
de se manifestar. O ato de ocupação forçada
do salão verde da Câmara Federal, por mais radical
que tenha sido, mostra a insatisfação e a indignação
dos trabalhadores diante de um Congresso que absolve os
parlamentares envolvidos com o mensalão; se envolvem
em muitos outros escândalos, como o dos “sanguessugas”;
engaveta projetos de interesse dos camponeses e camponesas, como
a Proposta de Emenda Constitucional (PEC nº438/01) que prevê
a expropriação das terras onde há a prática
do trabalho escravo; não determina um limite
para a propriedade rural no Brasil. Some-se a rejeição
do relatório final da Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito da Terra (CPMI), onde se diz que o latifúndio
e a falta de reforma agrária são causas maiores
da violência no campo, e constata: só na Amazônia
há mais de 100 milhões de hectares de terras públicas,
devolutas e improdutivas, que poderiam ser destinadas para a Reforma
Agrária.
----------O
relatório substitutivo que propõe classificar as ocupações
de terras como crime hediondo e ato terrorista, e que ainda coloca
os trabalhadores, vítimas da violência no campo, como
responsáveis pela mesma, não é uma demonstração
de violência dos representantes do povo na Câmara Federal?
----------O
envolvimento de parlamentares em escândalos que lesam, ampla
e profundamente, o patrimônio público e o descaso com
que o Congresso Nacional trata as questões sociais não
são classificados como violência. O povo se sente afrontado
ao ver parlamentares de partidos - que sempre praticaram a corrupção
e a defesa de interesses particulares - se apresentando, hoje, como
defensores da ética e da moralidade públicas.
----------Os
milhões de brasileiros submetidos às intermináveis
filas de espera do SUS não são vítimas de um
grande vandalismo promovido pelos defensores da ordem capitalista?
A política econômica neoliberal, vigente no Brasil
desde 1990, não causa um vandalismo no meio dos pobres como
o desemprego, a exclusão e a violência social crescente?
Basta olharmos as nossas tarifas públicas, os altos impostos
incidentes sobre os combustíveis, as contas de luz, água
e telefone e que em última instância só revertem
em benefícios para uma mesma minoria no Brasil.
----------Manter
um Estado penitenciário, com prisões superlotadas,
tipo campos de concentração, investir em mais e mais
viaturas e aumento do contingente policial não é um
vandalismo governamental e falência do Estado Social?
----------Agronegócio,
mineração depredadora e as monoculturas do eucalipto,
da cana-de-açúcar, da soja ... que não geram
empregos e concentram terras em poucas mãos não são
vandalismo contra os camponeses, a mãe terra e a irmã
água?
----------Em
2005, foram investidos 20 bilhões de reais em educação
e 160 bilhões de reais, oito vezes mais, para pagar juros
da dívida pública que já chega a um trilhão
de reais.
----------O
povo trabalha 1,5 mês para pagar o preço da corrupção
no Brasil. Até o mendigo, quando compra um pão na
padaria, paga impostos. Os lucros astronômicos dos banqueiros
configuram uma ditadura do sistema financeiro em cima do povo pobre.
Tudo isso é vandalismo e violência e deveria ser motivo
de indignação de todos. O povo brasileiro paga, só
de juros da Dívida Pública, mais de Rs 200.000,00
por minuto, 365 dias do ano.
----------O
Brasil tem uma Dívida social de R$7,2 trilhões.
Sobre a Riqueza Nacional, 10% da população
rica se apropria de 75%; e 90% do povo brasileiro fica apenas com
25% da riqueza do país. Sobre os Títulos da
Dívida Pública: R$120 bilhões de reais
do pagamento dos títulos foram repassados para 20 mil famílias
(cerca de R$6 milhões de reais por família ao ano).
Sobre Previdência Social: R$140 bilhões
de reais no atendimento de 21 milhões de famílias
de aposentados (cerca de R$6 mil por família ao ano). No
mundo do Trabalho: Em 1980, a renda do trabalho
era 50% do Produto Interno Bruto - PIB. Agora representa 36%. Quatro
milhões famílias vivem sem remuneração
(350 mil famílias na cidade de São Paulo). Novos
empregos: De três novos postos abertos, dois estão
na faixa de 1(um) a 1,5 (um e meio) salário mínimo
(até 450 reais). Educação e Juventude:
De duas pessoas desempregadas, 1 (uma) tem menos de 25 anos. Quatro
milhões e 300 mil de jovens desempregados. Um milhão
e 350 mil jovens qualificados saíram do país na década
de 90 em busca de oportunidades. A cada 10 alunos matriculados no
primeiro ano do ensino fundamental, somente 1 (um) conclui a universidade.
2% dos proprietários rurais detêm 46% da terras férteis
do país.
----------Diante
desta realidade, acima descrita, vociferar contra vândalos
da classe pobre, é, no mínimo, não enxergar
a realidade e empurrar com a barriga uma situação
insustentável. Tais fatos refletem o vandalismo dos poderes
instituídos em progressiva forma de perversão. Os
grandes vândalos nunca têm sido os pobres, mas uma elite
opressora e corrupta com suas estruturas de poder: a política
econômica neoliberal, o latifúndio, a mídia
a serviço do status quo. Os poderes executivo, legislativo
e judiciário ainda estão estruturalmente pouco comprometidos
com uma mudança que os pobres vêm reivindicando há
séculos.
----------As
manifestações pacíficas – abaixo assinados,
passeatas, greves ... -, quando acontecem, não são
levadas a sério. Parece que o único microfone, que
está sobrando para os pobres, é lutar, de forma organizada
e, não raro, em estado de total abandono, extravasar a indignação
que sente na própria péle.
----------Uns
dizem: “Prédio público não pode ser depredado.”
Muito bem. Mas, o Congresso não mostra estar privatizado
nas mãos de uma classe política sem interesse de promover
o bem comum? Mesmo assim, aqui não haveria legítima
defesa? Se não podemos aprovar o gesto de quebrar coisas,
o que dizer dos que abusam de seu poder, quebrando pessoas de forma
sutil e diluída?
----------O
que fere a consciência democrática de todos os brasileiros
e é um vandalismo global e sistemático por parte de
autoridades como na redução violenta da biodiversidade,
a exterminação da fauna e da flora brasileiras, a
diminuição do volume de água nos locais do
plantio, a contaminação do solo, da água dos
rios e córregos pelo uso exagerado de herbicidas e outras
substâncias tóxicas. Aqui, na maioria dos casos, indústrias,
empresas e grandes proprietários antiéticos provocam
um ameaçador desequilíbrio biológico com a
infestação de pragas que atingem o meio ambiente e
as produções agropecuárias de populações
vizinhas.
----------Gandhi,
Martin Luther King Jr., e outros mártires dos oprimidos,
lideraram processos de desobediência civil: luta contra leis
injustas sem agredir pessoas. Como gesto extremo, querem acordar
consciências anestesiadas que são cúmplices
de sistemas opressivos. A não-violência de Gandhi e
Luther King não dizia respeito às coisas, mas, sim,
às pessoas humanas.
----------Oxalá,
autoridades e povo se dignem ouvir os gritos dos menos favorecidos
– uma grande maioria! - que clamam por justiça neste
Brasil. Como? Ouve quem responde. Como? Cultivar solidariedade pelos
marginalizados, assumir a cidadania, mostrar bons cuidados pelo
meio ambiente, responsavelmente depositar o voto na urna, participar
de movimentos e associações, ingressar em alguma ONG,
marcar presença na família e nas comunidades (também
da Igreja), politizar a visão da realidade, reforçar
movimentos populares e sociais que se alastram pelo Brasil, exercer
a democracia participativa e entusiasmar iniciativas sociais, perto
e longe. Assim, contribuiremos para construir um Brasil Diferente,
mais justo, fraterno e feliz. Viva o povo brasileiro!
Frei Gilvander Luís
Moreira – e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Belo Horizonte, 11 de junho de 2006.
(1)Mestre em exegese bíblica, assessor de CEBs,
SAB, CPT e CEBI.