POLÍCIA
CAESA:
EXECUÇÃO OU AUTODEFESA?
Frei Petrônio
de Miranda, Frade Carmelita. Tel.: (74) 3621-4535
E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br
----------A
missão do padre não é apenas ficar na igreja,
mas ser igreja. Quando falo em ser igreja, refiro-me ao contato direto
com o povo através dos seus clamores, alegrias e tristezas.
Esse método de evangelização teve início
com o Concílio Vaticano-II, (1962-1965), através do
grande Papa, João XXIII, levando a igreja a dialogar com o
mundo, deixando de ser uma instituição piramidal para
se transformar numa Igreja "Povo de Deus". Logo, em seguida,
vieram as Conferências de Medelin (1968), Puebla (1979) e Santo
Domingo (1992) afirmando e reafirmando Opção pelos pobres
e inculturação. Neste ano, dando continuidade ao novo
jeito de ser igreja, teremos a V Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano e do Caribe, que será realizada no mês
de maio, do dia 09 a 13, com a presença do Papa Bento XVI,
em Aparecida do Norte-SP.
----------Meu
caro leitor do jornal Tribuna Regional, essa introdução
tem como objetivo mostrar-lhe o outro lado da igreja. Ou seja, o padre,
além de ser o mensageiro da Boa Nova de Jesus Cristo, tem por
dever e obrigação participar da vida social e política
da sua paróquia. Como tal, é impossível ficar
em silêncio diante do grito dos pobres e dos clamores de seus
paroquianos
(Ex 3,7 -10).
----------É
dentro desse contexto que relato a revolta da senhora Marta Margarete
e do senhor Antônio, pais do jovem Gil Marcos, tombado por terra
na sexta-feira, dia 13 deste, vítima de um “confronto”
com a Caesa-Companhia Especial de Ações no Semi-Árido.
Coincidência ou não era justamente a sexta-feira 13!
Noite de terror, medo e morte para esta família. Não
quero condenar a ação da Polícia Civil ou Militar
da nossa cidade, mas questiono os métodos de trabalho dessa
companhia que está em nossa cidade e no Semi-Árido para
proteger os cidadãos. Se as investigações comprovarem
que de fato o jovem Gil Marcos foi executado friamente dentro de sua
própria casa, a sociedade jacobinense não pode silenciar
perante tal brutalidade que clama aos céus. Portanto, chegou
a hora do Movimento “Vamos Abraçar Jacobina”, da
comunidade Católica, Evangélica, dos nossos vereadores,
que aliás estão no eterno silêncio, sem envolvimento
nenhum com os reais problemas da nossa cidade, dos Sindicatos, Associações
e Movimentos não silenciarem frente a esta brutalidade.
----------Você
pode me dizer: Frei, o jovem era usuário de drogas. Eu respondo:
Vamos matar todos os jovens que são viciados da nossa cidade?
Quantos irão sobreviver? Você pode me perguntar, Frei,
ele já errou e cometeu ações contra a comunidade?
Eu respondo: “Quem não tiver pecado atire a primeira
pedra”! (Jo 8,7). Você pode objetar: Frei, ele tem um
irmão preso. Eu respondo: vamos matar todas as pessoas que
tem um parente na prisão? Você pode me perguntar. Frei,
por que o senhor não fica rezando na igreja e deixa os problemas
da comunidade de lado? Lugar de padre não é na igreja?
Eu respondo: Se nós, comunidade, não profetizarmos,
as pedras profetizarão (Lc 19,40). Assim como o radialista
Maurício Dias, da Rádio Clube Rio do Ouro, você
pode me perguntar. Frei, por acaso o senhor é candidato a prefeito,
já que o senhor está sempre na mídia defendendo
os pobres? Eu respondo: Qual a missão do pastor diante do sofrimento
do seu rebanho, vítima de uma sociedade farisaica, capitalista,
moralista e egoísta? Silenciar? Cruzar os braços ou
agir?
----------Ao
final do nosso artigo, convido-o a se dirigir até a Vila Feliz
e procurar a casa do Gil Marcos, de 22 anos. Lá, você
vai poder ver as marcas de sangue no banheiro, local onde ele foi
“assassinado”, logo após sofrer a invasão
da CAESA, sem nenhum mandado da justiça para tal ato. Lá,
você vai poder ver as marcas de sangue na sala, local onde o
corpo do jovem pai foi arrastado. Lá, você vai poder
ver as escadarias da casa, local onde o corpo do Gil foi arrastado
e jogado no carro da CAESA. Lá, você vai poder conversar
com o senhor Antônio, pai do Gil, que passou mal ao ver o seu
filho chorando e silenciando, logo após os tiros. Converse
com este pai e veja o constrangimento quando ele relata que, ao passar
mal, teve que fazer as necessidades fisiológicas sob a luz
de uma lanterna da CAESA e de um soldado ao seu lado. Converse com
a dona Marta Margarete e sinta o grito de dor de uma mãe que,
assim como a Virgem Dolorosa, viu o seu filho morrer sem poder fazer
nada. Se tudo isso não lhe comover, diga: EU NÃO SOU
UM SER HUMANO!
----------
Obs.: O Movimento “Vamos Abraçar Jacobina” convida
a comunidade jacobinense para a Missa de 7º Dia, do jovem Gil
Gomes, que será celebrada sábado, dia 21, às
19h, na igreja Matriz, e aproveita para conclamar a todos, através
de um gesto simbólico de uma fita preta no luto e na luta,
por uma sociedade de PAZ .
RESPONDA-ME
SE SOUBER.
Frei Petrônio de
Miranda, Frade Carmelita. Tel.: (74) 3621-4535
E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br
Site.: www.pcse.org.br
----------É
possível não se compadecer diante de uma tragédia?
----------É
possível não denunciar as arbitrariedades em nome da
lei?
----------É
possível cruzar os braços diante do sofrimento de um
pai?
----------É
possível olhar para a cruz e esquecer os crucificados?
----------É
possível fingir que não vê nem ouve o clamor dos
pobres?
----------É
possível olhar para a noite escura sem ver o brilho das estrelas?
----------É
possível esquecer os espinhos que nos ferem nos caminhos da
vida?
----------Por
que será que os jovens pobres são sempre os criminosos?
----------Por
que será que os jovens pobres são sempre os traficantes?
----------Por
que será que em Jacobina não tem defensoria pública?
----------Por
que será que os pobres têm medo de denunciar a violência?
----------Por
que será que só os pobres tem que ir para a cadeia?
----------Por
que será que vidas são ceifadas em nome da lei?
----------Por
que será que os adolescentes tem que morrer em nome da lei?
----------Quando
Jacobina vai ressuscitar da noite escura?
----------Quando
Jacobina terá homens comprometidos com os pobres?
----------Quando
Jacobina descerá a serra para lutar por dignidade?
----------Quando
Jacobina não ficará presa a grupos políticos
e econômicos?
----------Quando
Jacobina voltará a ter o brilho da paz nos olhos dos jovens?
----------Quando
Jacobina ouvirá o clamor das crianças nas ruas?
----------Quando
Jacobina não terá mais medo das palavras orgulhosas?
----------Será
que a nossa fé é mesmo em Jesus Cristo-O Profeta?
----------Será
a que a nossa religião é mesmo geradora de vida?
----------Será
que as nossas ações visam ao bem comum?
----------Será
que temos coragem de abraçar o Evangelho até a morte?
----------Será
que Deus não se compadece diante do grito das viúvas?
----------Será
que os filhos foram criados para serem assassinados?
----------Será
que construímos a história ou ficamos parados no tempo?
----------Por
que será que alguns homens se acham os donos da verdade?
----------Por
que será que existem leis apenas para o “Zé”
e para a “Maria”?
----------Por
que será que temos medo de defender os nossos direitos?
----------Por
que será que nos omitimos diante das injustiças sociais?
----------Por
que será que esquecemos que a morte também virá
nos buscar?
----------Por
que gostamos de promover o ódio e o “disse-me- disse?”
----------Por
que somos contraditórios em nossas ações e palavras?
----------É
possível não ficar revoltado diante do grito de uma
mãe?
----------É
possível não denunciar as marcas de sangue da violência?
----------É
possível não contemplar os olhos de medo de uma viúva?
----------É
possível amar o crucificado e esquecer os crucificados da vida?
----------É
possível comungar o corpo de Cristo e ferir os corpos indefesos?
----------É
possível ser um profissional ético e esquecer os direitos
humanos?
----------Quando
é possível? Por quê? Será?
----------Obs.:
O Movimento: “Vamos Abraçar Jacobina”, mais uma
vez leva a sua solidariedade aos parentes e amigos do senhor Antônio
e da Dona Marta, pais do jovem assassinado pela CAESA, e repudia toda
forma de violência que venha atentar contra os direitos humanos
e os direitos dos cidadãos garantidos na Constituição.