Geddel,
por Dom Luiz Cappio
(Publicada no Jornal A Tarde, Bahia 09/12/2007)
Por Dom Luiz F. Cappio
-----------É
verdade que sem boa causa não há mártir. E boas
causas, há muitas hoje: as da justiça, da paz, da democracia,
da soberania alimentar, da ecologia – causas do Reino de Deus.
Por outro lado, proliferam causas obscuras, de que não faltam
defensores.
Em nome da seca (fenômeno natural) e da sede no Nordeste (fenômeno
social), vende-se a idéia (marketing) da transposição
como uma obra redentora. O que está por trás, o jogo
de interesses, os mecanismos de mercado na gestão, isso se
omite, para não quebrar o encanto, despertar resistências.
-----------A
causa a que me dedico com afinco há 33 anos é muito
maior do que a compreensão do ministro. Não cabe no
reducionismo maniqueísta de ser contra a transposição
e a favor da revitalização do rio. É por outra
relação com a natureza, com as pessoas e com o Criador,
a prioridade da vida acima do lucro, as instituições
de poder a serviço do bem comum.
-----------No
caso, o desenvolvimento do semi-árido, apropriado às
suas diversidades geo e socioambientais, voltado para o período
chuvoso não para a seca, com prioridade no povo, não
nas elites. Não espero que o ministro entenda isso. E quem
muda de posição tão rapidamente merece desconfiança.
-----------Que
democracia é essa que poucos prevalecem contra a maioria, manipulando
a sede; que se impõe ditatorialmente, à base de ilegalidades
e audiências públicas pró-forma, sem considerar
críticas e alternativas; que usa o Exército, contristando
soldados a trabalhos extrafunções, intimidando movimentos
sociais? Mas democracia substantiva é algo incompreensível
para o ministro. Como também a legitimidade de um cidadão
dispor de si em favor de muitos, em face de uma imposição
autocrática.
-----------E
mais ainda, a tradição cristã do martírio
em defesa da fé e da vida plena.
-----------O
maior impacto da transposição sobre o rio não
é a porção de água dele a tirar. É
a perpetuação do modelo que vê nele apenas “recursos
hídricos” e negócios, num acúmulo de usos
econômicos seguidos e irrestritos que o exaure e o exterminará.
Antes de tudo, o rio é complexo interdependente de vidas; para
o povo, é pai e mãe. Coisa que o ministro também
não entende.
-----------Por
que falar apenas dos 26 m³/s, a vazão constante a ser
transposta? E as vazões máximas de 127 m³/s e maiores
quando transporem também do Rio Tocantins? Curioso: a vazão
mínima equivale à da válvula difusora do Açude
Orós, no Ceará, e a máxima é igual à
evaporação do Açude Castanhão, no mesmo
Estado, conforme o grande construtor de açudes do Dnocs, Manoel
Bomfim Ribeiro. Segundo ele, não há mais onde construir
açudes, precisamos agora usar suas águas em sistemas
eficazes e democráticos.
-----------O
ministro diz que as 530 obras do Atlas Nordeste da Agência Nacional
de Águas são complementares à transposição.
Mas a transposição não era para a sede de 12
milhões? Como necessita daqueles complementos? As cidades com
mais de 5 mil habitantes, não contempladas no Atlas, podem
ser atendidas pelos sistemas de adutoras com água dos açudes.
Um exemplo: o professor José Patrocínio, de Campina
Grande, defende que uma gestão mais competente do sistema Coremas/
Mãe d’Água resolve o déficit hídrico
daquela cidade. E conta que lá o desperdício é
de 60%, 20% a mais que a média nacional!
-----------Aproveitar
a “gota d’água disponível”, ensina
a autoridade de um Aldo Rebouças, da USP.
Nosso projeto é muito maior. Queremos água para 44 milhões,
não só para 12.
-----------Para
nove Estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios,
não apenas 397. Tudo pela metade do preço. O Atlas e
as iniciativas da ASA (sociedade civil) são muito mais abrangentes
e têm finalidade no abastecimento humano. A transposição
é econômica, neoliberal. Essa diferença, o ministro
“ignora”.
-----------Quanto
aos destinos da transposição, Estudos de Impacto, não
o ministro, esclarecem: 70% para irrigação, 26% uso
industrial, 4% para população difusa. Por que não
se assume e se discute se esse é o caminho do desenvolvimento
do semi-árido? A recomposição de mata ciliar
na Barra é importante, mas insuficiente. E as áreas
de recarga, e os cerrados e caatingas devastados? Fazer obras onde
moro não esconde as intenções “marketeiras”...
E as milionárias “cartas de intenção”
assinadas com os prefeitos ribeirinhos, a quantas andam? Sujeitos
políticos somos todos, pessoas e instituições,
por atuação consciente ou omissa. A Igreja sempre foi
esse ator importante no Brasil, não incomodava quando do lado
de poderosos convenientemente “cristãos”. Quanto
a mim, só busco fidelidade à minha missão de
bispo franciscano, ao lado do povo do rio e do semi-árido brasileiro.
Causa que vale o martírio se for preciso e da graça
de Deus.
Fonte: publicada
no Jornal A Tarde, Bahia 09/12/2007