Testemunho acerca
do bispo Dom Cappio
Leonardo
Boff
-----------Foi
meu aluno de teologia por 5 anos. Sempre trabalhava nas favelas de
Petrópolis. Como vocação adulta, vindo de uma
família rica de Guaratinguetá, sua opção
franciscana era límpida e sem os vícios da formação
convencional seminarística. Já na época o cercava
uma aura de santidade pessoal, de extrema simplicidade e pobreza.
Era estudante assíduo. Mas até hoje me deve o trabalho
final,uma espécie de tese de fim de curso, que todos deviam
fazer. Eu insistia que se pusesse a trabalhar. E foi protelando até
o último dia, quando foi transferido para S. Paulo para trabalhar
nas favelas.
-----------Antes
de sair, pela madrugada, me deixou debaixo na porta escrita em português,
latim e grego o texto do Pai-Nosso. Dizendo: “depois de 5 anos
de estudo, oração e meditação foram o
que me restou: a oração de Jesus que o Sr. nas aulas
nos ensinou ser a essência da mensagem de Jesus”. Sempre
que o encontrava lhe cobrava o trabalho. Depois que ficou bispo me
desmoralizei e me edifiquei pelo grave “erro” cometido
pelo Vaticano. Este não avaliou quem era Frei Cappio, aquele
que na quinta-feira santa desapareceu de S. Paulo, levando apenas
o burel franciscano, a Bíblia e a Regra de S. Francisco. De
carona com caminhoneiros foi para onde achava que estavam os pobres
dos pobres em Barra da Bahia. O Provincial o descobriu apenas 2 meses
depois. Telefonou-me dizendo: “devemos ir pegá-lo pois
ficou louco”. Eu lhe respondi: “Provincial, abra Marcos
3,21 onde se diz: os parentes saíram para pegar Jesus porque
diziam: ele está louco”. Acrescentei: “ele está
em excelente companhia, com Jesus e ainda com S. Francisco que se
chamava a si mesmo de “pazzus” que em latim medieval e
italiano significa louco. Lógico, louco para certo tipo de
ordem deste mundo, não para a ordem do Reino.”
-----------Bem,
isso ocorreu já há uns 30 anos. Ele percorria todo o
vale do Rio, pregando de lugar em lugar, dormindo em lugares ermos,
até em cima de árvores como o fazem “os loucos
de Deus”, categoria importante da Igreja ortodoxa russa, como
para nós os mártires, os confessores e as virgens...
que para nós, em nossa pobreza espiritual, possui apenas valor
psicanalítico.
-----------Por
ocasião dos 800 anos da morte de S. Francisco, organizou um
pequeno grupo que foram das nascentes do rio na Serra da Canastra
até a sua foz, andando durante todo um ano,levantando dados
da região, econômicos, políticos, nomes de lideranças,
problemas ecológicos, tradição populares, identificação
de vilas quilombolas e agrupamentos indígenas. Tudo isso resultou
num material enorme, bem detalhado com dados feitos em cima da realidade
vivida, sentida, sofrida e analisada.
-----------Quando
o candidato Lula fez a caravana no S. Francisco na eleição
que perdeu para FHC participei desde as nascentes até Petrolina.
Subimos o rio de barco. Descíamos quando estava totalmente
assoreado, íamos de ônibus, de carro e até a pé.
Foram 13 dias intensos. Eram dias de estudo. Em cada lugar Lula se
reunia com as lideranças populares, com os empresários,
com as cebs e outros grupos. Quando chegamos em Barra, intermediei
um encontro do então ainda Frei Cappio e o seu grupo com Lula.
E foram entregues a ele todos aqueles materiais. Lula os mandou analisar
pelos especialistas que nos acompanhavam, gente do quilate de Aziz
Ab’Saber, Graziano, Patrus, Roberto Malvezzi e outros que vinham
da área da sociologia, da geografia, em fim, quem tinha conhecimentos
específicos sobre o rio e a bacia hidrográfica do S.
Francisco. Lembro-me que dedicamos um dia inteiro sobre o barco para
discutir a eventual transposição do Rio. Ab’Saber,
nosso melhor geógrafo e outros cientistas analisaram os argumentos
pró e contra. No final Lula quis deixar a coisa aberta. Mas
os que analisaram os materiais de Frei Cappio testemunharam: “é
material da melhor qualidade”. Lula comentou: “isso servirá
de base empírica para as políticas que queremos incrementar
no vale todo”.
-----------Digo
isso para testemunhar: se há alguém de Igreja que entende
do rio, de seus problemas, de seu povo, das alternativas pensadas,
discutidas e construídas pelos movimentos sociais, com a melhor
assessoria em questão de água é o bispo Dom Cappio.
-----------Então
não se trata de um ingênuo, tomado pelo fervor religioso-franciscano.
É alguém que se enche de iracúndia sagrada quando
se deu conta de que o Governo bolou o seu projeto, enfiou-o goela
abaixo no povo, inventou audiências, discussões no Congresso
que nunca houveram (perguntei a vários deputados que negaram
absolutamente que houve tal discussão). Não tomou em
conta a opinião da comunidade científica como a de Aldo
Rabelo, nosso maior cientistas em águas, Ab’Saber e de
outros do próprio Nordeste, não considerou a proposta
da ANA (Agencia Nacional de Águas) que fez o Mapa de Águas
do Nordeste com a proposta de abastecimento urbano (omitiu a inclusão
da área rural) envolvendo 34 milhões de pessoas ( a
do Governo apenas 12 milhões) beneficiando mais de 1300 municípios
(o do Governo são algumas centenas) a um preço que é
metade daquele orçado oficialmente (cerca de 6 bilhões
de reais contra 3,6 da ANA), não incluindo o que já
está em curso – o projeto da ASA (Articulação
do semi-árido) - com a construção de um milhão
de cisternas (já se construíram 200 mil) num projeto
inteligente (2 em um: duas cisternas, uma para beber, outra para irrigar
e um pedaço de terra). Uma audiência propalada pelo Governo
foi feita na quinta-feira de carnaval (imagem o carnaval da Bahia..)
num hotel cinco estrelas, em Salvador, a 800 km do rio S. Francisco.
Quem iria participar deste audiência? É pura formalidade....E
assim outras atitudes autoritárias vindas de cima, desconsiderando
a acumulação feita pelas comunidades, com discussões
impositivas, cooptação de lideranças comunitárias
e políticas.....algo, portanto, nada democrático.
-----------Os
que vivem na região conhecem as elites econômicas da
região, os interesses das grandes empreiteiras, os planos do
agronegócio de exportação, e a parca destinação,
apenas 4% da água para a dessedentação humana
e animal.
-----------O
bispo não é contra qualquer transposição
de águas do rio. Não quer este tipo que reproduz e fortalece
as relações de dominação e submetimento
daquela população. Exigia uma ampla discussão
na sociedade e em toda a bacia hidrográfica, coisa que o Presidente
prometeu por escrito e que nunca cumpriu. Basta ler as duas cartas
oficiais do Bispo, publicadas no JB Ecologia do último sábado.
-----------Seu
jejum não era martirial. Era para a sociedade despertar e se
responsabilizar por aquilo que estava sendo feito pelo Governo, manipulando
sentimentos como “ prefiro ficar com os 12 milhões de
sedentos do semi-árido do que com o bispo”, quando a
alternativa era e é :”prefiro ficar com os 34 milhões
de sedentos do semi-árido do que com o agro-negócio”.
-----------Se
não houvesse o engajamento pessoal da atriz Letícia
Sabatella que esteve com o bispo em Sobradinho e a polêmica
que provocou com Ciro Gomes no jornal O Globo, nada ou bem pouco teria
saído pela imprensa. Eu pessoalmente tentei por todos os modos
romper o círculo férreo da mídia, sem qualquer
resultado. Agora, pelo menos, já está prometido um debate
no programa Painel da Globonews com William Waack que vai ao ar sempre
aos sábados às 23,10 e aos domingos às 20,10.
Aí deverão estar representantes da posição
do governo, do bispo e da comunidade científica.
-----------O
jejum do bispo não foi em vão. Nem misturou fé
e política. Seu móvel era ético-espiritual, mas
sua argumentação era estritamente política e,
se quiserem também técnica (qual é o melhor projeto
que mais beneficia pessoas com custos menores). Dos 8 pontos apresentados
por ele e seu grupo numa difícil negociação na
CNBB 6 foram acolhidos, materiais que circulam pela internet e me
dispenso de referir.
-----------Estimo
que a questão não se aquietou. O governo tem poder econômico,
militar, político e até judicial (o Supremo não
analisou o mérito da questão apenas a questão
do impacto ambiental, mas é, via de regra, amplamente favorável
ao governo). Pode fazer o que se propõe. Mas se deixar de fora
os tantos milhões que não receberão água
em suas casas e o projeto beneficiar preponderantemente os que já
são há séculos beneficiados na região,
será a transposição da maldição
que pesará na biografia do Presidente. Pelo que já fez
de bem para o povo brasileiro, ele não merece este castigo.
Mas o poder cega e a vaidade de querer se perenizar na história
pode se voltar contra quem pratica essa hybris.